quinta-feira, 10 de julho de 2014

ATITUDES SIMPLES COM AS CRIANÇAS AJUDAM PAIS E PROFESSORES NA FORMAÇÃO DA PERSONALIDADE HUMANA.

A Criança e os Mimos
Autora: Anne Marie Lucille 
Educar com Mimos é Domesticar sem Tino
"Se competir é o único caminho que nos conduz à felicidade, então, viver em paz será impossível..."

Será que toda inutilidade que sabemos para nada servir, isso também precisamos ensinar para as crianças?
Uma criança necessita de atenção, carinho e cortesia no trato, de quem quer que seja, e especialmente respeito. Respeito é simplesmente ter o cuidado e a consideração de não contaminá-la com nossos vícios, manias e maus hábitos. 
Sim, nós somos os contaminadores, uma vez que elas, psicologicamente falando, ao nascerem, ainda não são nada, não têm personalidade, costumes, sequer pensam de forma lógica. Suas mentes estão vazias, lá não existem memórias, nenhum repertório de suas experiências de vida, e sem isso, não são capazes de pensar, ao menos de forma lógica, analógica e consciente. 
Mas, logo nos encarregamos de preenchê-las com aqueles nossos caracteres que consideramos mais preciosos, ou seja, nossas vaidades, crendices e crenças religiosas, superstições, medos, paranoias, fanatismo, desejos e preferências mais bizarras. Isso ocorre porque somos uma maioria cuja convicção é de que podemos, na verdade de que temos o dever ou a missão divina, de refazer o mundo de conformidade com nossa imagem e semelhança. 
Observe o que motiva um corrupto, se não é a satisfação por ganhar alguma coisa, de ser cortejado com inúmeros agrados, de sentir-se poderoso pelo assédio dos bajuladores, um séqüito de adoradores, também corruptos, sempre à espreita de uma oportunidade para receberem algum favor, de preferência sem nenhum esforço.
Imagine se existisse uma maneira de tornar nossa vida mais fácil, confortável, ainda mais quando essa condição, para ser conquistada, não iria requerer de nossa parte quase nenhum esforço. Não seria preciso nenhum esforço pessoal, pois, chegaria até nossas mãos, numa bandeja dourada, em forma de presente, com todas as honrarias.
          Se pudéssemos, com poucas palavras traçar o perfil íntimo de um corrupto, o que teríamos pela frente? Bom, este deveria ser alguém que já sai de casa na expectativa de trazer da rua um pacote sempre crescente de vantagens. Um homem que desconhece a ética, um fiel partidário da lei do menor esforço, um indivíduo que está sempre disposto a mentir sem nenhum pudor, se o propósito for atingir suas metas de realização pessoal.
          Quando uma criança é tratada como mimos exagerados, quer dizer presentes e todo um aparato de agrados para que cumpra seus deveres regulares, ela está diante das mesmas condições que motivam também um corrupto. Presentes para escovar os dentes, para ir à escola, para ir dormir cedo, para pentear o cabelo, para não embirrar com os irmãos. Então, que tipo de mensagem estamos inserindo na personalidade desse jovem?
            Criança precisa de educação, zelo e respeito, toque e carinho, disciplina ordenada, que é o sentido de organização pessoal. Criança precisa aprender desde cedo o sentido da vida, o sentimento de solidariedade, mas não a solidariedade do dar para receber em dobro. Criança precisa sim, descobrir o que é a amizade, praticar respeito porque vivenciou isso, porque aprendeu que é a coisa certa, e não porque está escrito em algum livro sagrado. 
Quando observamos o comportamento dos nossos jovens, a leitura que fazem do nosso mundo, do nosso modo de vida, do qual são partes integrantes e atuantes, logo se percebe que alguma coisa está errada, ou incompleta. Não precisa ser muito perspicaz para perceber isso. Um mínimo de inteligência já basta. Se ainda assim você não for capaz de perceber isso, a lavagem cerebral que te fizeram extrapolou os limites da deformação mesológica, de onde coletamos a maioria dos traços do nosso comportamento. 
E há toda uma cultura instituída de que criança precisa de agrados exagerados, que em seu mundo tudo deve ser permitido, e isso inclui as birras, os erros, mesmo os intencionais, até como forma de evitar que sofram constrangimentos, caso sejam repreendidas. É crença de que tais intervenções, depois, possam se transformar em traumas psicológicos sérios. No entanto, deixá-las em frente a um aparelho de televisão, que transmite o dia inteiro, coisas bizarras, violência sem limite ou utilidade, conteúdos capazes de perturbar até um adulto centrado, paradoxalmente, isso é permitido, apoiado, considerado sem ressalvas como material didático de valor cognitivo. 
Assim, alertar para um erro que eventualmente venham a cometer é considerado coisa capaz de lhe causar traumas. Mas, assistir novelas com tramas espúrias, de uma realidade absurda, onde a deformação social é uma coisa natural, isso é considerado edificante e até debatido em círculos de pais e professores como exemplificação saudável dos novos comportamentos.
Onde está a falha? E se a falha estiver em nosso modo de enxergar essa coisa, de aceitar essa manipulação de maneira transigente, como religiosos fanáticos que se recusam a pensar, e simplesmente se deixam conduzir por gurus inescrupulosos, para o abismo, crentes de que do outro lado das trevas existe um paraíso, que foi construído especialmente para lhes servir, para atender suas carências mais infames? 
Há diferença entre eles e nós? Tais promessas não lembram os mimos? Existe presente, compensação ou recompensa maior que essa? 
Sabemos bem como a indústria, o mecanismo social que criou a ideia do dar e receber presentes, e agrados, cada vez se firma como uma instituição sólida. Tornou-se uma religião, uma doutrina de vida, faz parte de todas as tradições, de todos os povos, em todos os tempos. Mas, paradoxalmente, ao invés de um aumento da cordialidade e respeito entre os indivíduos, vemos cada vez mais antagonismo, relacionamentos em crise, o fim do sentido real de confraternização, e se ampliam os conflitos. Fica evidente que há uma falha grave em nosso modo de tratarmos tudo .Então, para uma criança, cuja mente ainda carece de lastro, de experiência de vida para ser então capaz de discernir sobre a complexidade do viver correto e tudo mais, o que significa para ela ganhar presentes, mesmo que seja como uma forma de incentivo, para que cumpram seus deveres mais óbvios? 
Trata-se de um modo institucionalizado de convencê-la, muitas vezes, a cumprir algo, contra sua vontade e desejo espontâneo. Convencer é o mesmo que forçar, logo, embora ela não interprete como tal aquele gesto, é sem dúvida uma forma de corrupção. Fazer algo contra sua vontade, só é possível através de compensações, ou agrados vantajosos. 
Ocorre que, quando se aproximam dos três anos de idade, quando já são capazes de compreender as coisas, nessa etapa, carecem de organização pessoal e disciplina. Essa responsabilidade não é de mais ninguém, logo não existem outros culpados. E essa ausência de uma cognição adequada, que conduz à indisciplina, pode torná-la indolente, preguiçosa, dependente em demasia dos outros, daí a necessidade de obrigá-la, por força de agrados, a cumprir seus deveres mais elementares.
Direitos e deveres, esta matéria, deveria ser a primeira em todo processo cognitivo, isso já desde os primeiros anos de vida. Na vida real, dentro das sociedades organizadas, os parasitas são aberrações, deformidades que causam desequilíbrio e representam uma ameaça concreta à harmonia entre indivíduos. Assim, ensiná-las desde cedo como a coisa funciona, é dever dos pais, e depois, tudo isso deveria ser reforçado pelos educadores, em sala de aula. 
É assim que tudo funciona, um ajudando o outro, e jamais, uns explorando os outros. Compreender essa regra básica é o primeiro passo para a autodisciplina. Disciplinada, a criança não precisará de agrados extras para cumprir suas obrigações, e assim estará livre da sombra da corrupção, seja da parte dos pais, ou parentes, que veem nos mimos e presentes uma forma de controle. Mas não percebem que se trata de um gesto corruptor, com nefastas consequências. 
E as crianças logo ficam viciadas em mimos e compensações. E toda sociedade patológica incentiva à prática. E existem as datas festivas, e eventos de toda natureza, que reforçam e reafirma o hábito. Viciadas em receber para dar alguma coisa, até um sorriso, o que podemos esperar das sociedades futuras? Qual será o caminho natural de alguém já corrompido, senão repassar aquilo que aprendeu e pratica, para seus sucessores?
Se o mimo e carinho, que quer significar afeto, desde que seja coisa gratuita, é para nós uma forma válida e correta de se educar, as compensações corruptoras não o são. A regra é simples, esse mesmo mimo, quando se transforma em pagamento, torna-se para elas uma fonte de futura dependência. 
Devemos nos lembrar que, naquela mente, ainda em formação, não existe nenhum conceito de regras sociais, nem a ideia do errado ou certo, ou qualquer outra coisa. Aquela pequena psique, ainda sem nada escrito em seu roteiro existencial consciente, já sabe, por instinto, a exemplo dos animais irracionais, o que é bom para ela. Bom, significa que aquilo é necessário à sua sobrevivência.
E sobreviver significa simplesmente: se não me favorece deve ser evitado, mas se ao contrário, favorece, deve ser aceito e cultivado. Mas, ela ainda não possui conceitos sobre ética, sobre comportamento incorreto ou correto, sobre valores, e todos esses vícios e manias que já conhecemos bem. 
Mimo, o carinho espontâneo, é coisa válida, lhe proporciona a sensação de segurança, aumenta sua autoconfiança, sensibilidade, melhora a qualidade da sua cognição, e para isso, presentes são necessários. 
No entanto, nós criamos algo novo, um tipo de autocorrupção, o conhecido processo do dar para então receber. E todo nosso modo de vida está centrado nessa deformação que acabou por se transformar num verdadeiro axioma. É dando que se recebe. E até nos livros sagrados isso se tornou um mandamento, um preceito existencial. Assim, até para sorrir, a criança passa a receber compensações, e doravante, nenhuma ação praticada em sua vida terá mais uma conotação espontânea, gratuita.
Nós lhes ensinamos tudo isso, elas não nasceram assim. Depois, já crescidas, quando se tornam egoístas, competitivas, dispostas a destruir seus semelhantes na simples defesa de um ponto de vista, como moscas desorientadas, ficamos a nos perguntar, “onde será que falhamos?”. 
Nós lhes ensinamos, desde cedo, que nada deve ser feito sem que exista uma contrapartida. Trata-se da regra básica de todas as sociedades: é dando que se recebe. Está lá, em nosso manual básico de vida na terra.
A criança não precisa ser corrompida para cumprir suas obrigações, precisa sim, ser esclarecida e instruída para não se corromper. Isso se faz simplesmente não a corrompendo com os fáceis agrados de toda vida. Já crescida, consciente das coisas, que mal há em lhes darmos um presente, sem motivo, sem ocasiões especiais, sem cobrança de coisa alguma, sem estar vinculado a nenhum mérito?


                      http://sitededicas.ne10.uol.com.br/crianca-e-mimos2.htm

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